21.3.07

“Sabe, Marco, ontem tive um sonho. Não foi um sonho bom, os lençóis molhados atestam, mas não era pesadelo. Eu deitado, ela vinha em sorridente fúria. Seus olhos se aproximavam. Aumentavam de tamanho conforme crescia o calor que irradiava dos lábios cada vez mais úmidos e brilhantes. A íris cor de mel era já como a vista de um mapa em alto relevo, cadeias de montanhas verdes entrecortadas por traços de um marrom avermelhado que seguiam para o imenso buraco negro no centro. Qualquer forma de pensamento era imediatamente sugada para desconhecido universo paralelo. Atravessei a córnea transparente e brilhante e fui arremessado bem do alto em uma planície verde deserta. Deserta? Eu a via ao longe, a cabeça inclinada em direção aos pés, em lentas passadas largas, sem dobrar os joelhos. Os fios do cabelo vermelho lhe caiam sobre a face, revelavam, de lado, apenas os lábios entreabertos, suspirava. Eu tentava gritar, mas o vento forte tornava tudo silêncio inquieto. Caminhei em sua direção, ela me avistou. Uma rajada jogou seus cabelos para trás, abriu sua boca em um sorriso. Saltitante ela veio em minha direção, ao encontro do abraço, apertado, a girar. Mas logo o vento cessou e chorava. E choveu. Escuro e frio. Mais forte, eu a apertava, contendo os soluços e absorvendo na camisa as lágrimas, mais molhadas que a chuva. Quando secaram, um beijo demorado quente no canto da boca devolveu todo o sangue para as veias. Depois, repousou as mãos sobre meus ombros, distanciando-se com um leve sorriso de compreensão, que logo caiu num súbito e morno desinteresse. O olhar fugiu, para baixo e para os lados. Caminhando lentamente me atravessou como se de fosse de espuma. Quando passou, meu estomago irradiou ácido gelado para resto do corpo. Ao fim da contração de dor, despreguei as pálpebras e estava em uma sala vazia, de luzes apagadas, um fim de tarde alaranjado. Olhei para trás: em um imenso sofá de plástico azul opaco, meio sentada, meio deitada,os mesmos olhos baixos de desinteresse, ela lia, lenta e relaxadamente, um livro escuro de capa vermelha. Caminhei em sua direção. Ao primeiro movimento ela me observou, e o olhar ficava mais atento a cada passada lenta e decidida. Quando meus joelhos encontraram os seus, ela se levantou, e seu olhar, que não desviava, já beirava temor. E estávamos assim, seus olhos bem abertos quase a encostar nos meus, quando ela desapareceu, sugada. Sozinho na sala já quase escura, eu a possuía em meus pensamentos.”

Um comentário:

Mari disse...

2h37 da manhã são lá horas do meu amor ficar aí na piração com esse Marcos?? Assim não dá!! ou ele, ou eu!!! ahahah vc faz umas imagens tão lindas que eu já estou quase não-resistindo à tentação de fazer um quadro LINDO pra cada texto seu.. ja pensou que legal q ia ser o seu quarto?!!! te amo!