23.2.07

Ctrl + ...

Quando eu era jovem e não tinha o peito cabeludo, jogava videogame. Adorava o mecanismo de salvar. Quando estava receoso de que o herói morreria, eu salvava o jogo.

Salvar: alguns comandos e eu tinha o poder de reverter a qualquer momento para o espaço-tempo onde me encontrava.

Antes de qualquer desafio salvava o jogo: para enfrentar o chefão: salvava; Não sabia qual era o caminho certo – salvava; ia tentar algo inovador e arriscado – salvava; "não aguento mais jogar, não vou conseguir nunca" - salvava e tentava depois, mais descansado.

Sonhava que se encontrasse a lâmpada do gênio, ia pedir um aparelho pra poder salvar a vida.
Salvar – a minha vida.

Assim eu ia poder ousar. Fazer coisas absurdas, insensatas, risco de vida. Se nada desse certo, era só reverter pro jogo salvo. Ia ficar rico, poderoso: conheceria o futuro e voltaria no momento salvo para conseguir vantagens do tipo ganhar na mega-sena.
Desenvolvi teorias elaboradíssimas sobre isso.

Esecrever é assim também. Escrevo, salvo, revejo, se não gosto: Ctrl + Z. Paro, descanso e mudo tudo depois.

Escrevendo sempre se pôde, mas nem por isso me tornei um grande escritor.
E, mesmo com o poder de salvar, nunca cheguei ao fim da maioria dos jogos de videogame que já tive.

Quantos textos bons eu já estraguei tentando melhorar depois!
Quanto tempo eu desperdicei jogando videogame!
Quanto eu já perdi na vida por ter medo que o herói morresse!

Um comentário:

Mari Carrara disse...

ah que coisa mais linda!